Bernardo de Paula Maciel

Atrevimento

Textos

TRANSCENDÊNCIA
  São falsos os profetas
   que vigiam os templos.
   São aves de rapina
   a sobrevoarem cadáveres insepultos.
   São árvores secas
   que não dão frutos!
   Homens, pobres homens,
   não querem escalar as montanhas,
   os horizontes são seus limites,
   anseiam o paraíso
   mas forjam seus convites!
   Querem paz,
   semeiam destruição.
   Um gatilho em cada dedo,
   um punhal em cada mão!
   Em cada braço um escudo,
   em cada gesto um absurdo
   Mas há quem se faça exceção...
   há quem pressinta
   uma escada para o céu.
   Há quem saiba renunciar
   à coroa da glória,
   à lareira no inverno,
   ao pavor na escuridão,
   à lágrima no féretro,
   na fome ao pão!
   Renunciar à vida no cadafalso,
   aos sonhos ao dormir,
   à esmola na sarjeta,
   á sombra no deserto,
   à lucidez na loucura!
   Ao mel, ao vinho,
   à chuva, ao carinho,
   à flor, à visão,
   às estrelas na amplidão,
   ao travesseiro, ao cobertor,
   ao brinquedo de natal,
   ao remédio, ao teto,
   ao desejo... à tudo!!!
   Renuncie à própria perfeição
   e a encontrarás...
   numa manhã de sol, numa estrada de ouro, 1
   num porto, num ancoradouro!
   Ela te espera à milênios,
   pra te seduzir!
   Para te envolver,
   pra te engolir!!!
   Então... tudo que se quer ter
   é a Herança Maior...
   a recompensa da labuta,
   é a dor, é a luta,
   é o Amor, é a fruta!
   O tesouro de um faraó,
   o prazer das gueixas...
   o pomo dourado
   do Jardim das Hespérides! 2
   Como é bom saber,
   ter toda a certeza,
   de que ela está lá...
   a essência do saber...
   que não se encontra
   numa fonte de águas azuis,
   tampouco no universo
   de um quadro-negro!
   Ela está dentro de nós
   e fatalmente, até mesmo incessantemente,
   a procuramos em cada átomo que nos compõem!
   Como agulha esquecida no palheiro!
   A beleza não é utopia,
   ela se encontra na simplicidade
   das coisas complexas,
   como o canto das cigarras.
   Quem já foi pássaro a voar, 3
   apiedou-se das árvores imobilizadas.
   Quem ao ser árvore, ofertava frutos...
   apiedou-se das rochas frias e insensibilizadas.
   Como também a Rocha Lapidada, 4
   em Sua Pureza Imaculada,
   apiedou-se dos homens sem asas!
   Em cada asteróide
   existe um carneiro e uma rosa,
   dois ou três vulcões
   e um menino de cabelos loiros!
   Mas quase ninguém se interessa!
   Em cada palavra
   existem mil sons
   para quem deseja ouvir!
   A verdade se enfeita em mil tons
   para quem deseja num lampejo observá-la!
   Quanto tempo será necessário
   para que alcancemos o topo,
   as montanhas do Olimpo,
   a casa dos Deuses?
   Quantas quedas sofremos?
   Ícaros desavisados que éramos 6
   desafiando o império das aves...
                                             em vão!
   Mas eis que aqui estamos,
   admirando o chão
   de onde um dia saímos,
   como uma semente que germina
   querendo alcançar o céu!
   Galhos, folhas, flores e frutos,
   alçados ao infinito,
   mas os pés firmes
   enraizados no chão!!!
   E nos purificamos
   com o passar célere do tempo,
   como água cristalina
   entre as pedras de um riacho...
   Tombando nos campos de batalha,
   desafiando as pás dos moinhos 7
   que acariciavam a cabeleira do vento!
   Meditando nas cachoeiras sibilantes
   que entoavam as músicas dos faunos.
   Observando os cogumelos dourados 8
   que proliferavam no Japão!
   Cada visão, uma lição!
   Cada grito, uma recordação...
   Cada pôr-do-sol, um adeus!
   Agonizamos vendo a televisão,
   de onde o sangue escorria...
   preto... e branco!
   E nos purificamos...
   em sucessivas transformações...
   em esquecidas encarnações,
   na metamorfose incessante da vida,
   pudemos compreender a transcêndencia esquecida,
   dos versos tão simplórios
   que compõem as partituras sublimes
   dste eterno Jogo de Avelórios! 9

    

                                   REFERÊNCIAS

    1- Estrada de ouro- "O Mágico de Óz"
    2- Jardim das Hespérides- "Os doze trabalhos de Hércules"
    3- pássaro a voar-vide o livro "Transformações" de Hermann Hesse
    4- Rocha Lapidada- referência a Jesus Cristo
    5- menino de cabelos loiros- "O pequeno príncipe" de Antoine Saint Exupery
    6- Olimpo e Ícaro- mitologia grega
    7- pás dos moinhos- "Dom Quixote" de Miguel de Cervantes
    8- cogumelos dourados- Hiroxima e Nagasaki
    9- Jogo de Avelórios- vide o livro " O jogo das contas de vidro" de Hermann Hesse onde o autor descreve um jogo de homens sábios que compreendem as ocultas correlações entre todas as coisas. Para mim a vida é um eterno jogo de correlações.

    Obs.Esta poesia foi escrita em um estado alterado de consciência.
Bernardo Maciel
Enviado por Bernardo Maciel em 03/02/2023
Alterado em 24/04/2026


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